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Serra do Itapetinga, um monumento ameaçado

Por: Daniel Abicair - Gestor da SIMBiOSE

27 de Outubro de 2008


A Serra do Itapetinga está presente nos municípios de Atibaia, Mairiporã, Nazaré-Paulista e Bom Jesus dos Perdões, destacando-se na paisagem como um monumento natural imponente e de beleza cênica. Localizada entre as Serras da Cantareira e da Mantiqueira, a Serra do Itapetinga é um importante corredor ecológico para a fauna e a flora da Mata Atlântica de Altitude. O seu nome é original do Tupi-Guarani: “ita” = pedra, "pe" = lisa, e “tinga” = branco, refere-se aos "Lajedos Brancos" que afloram na região.
A Pedra Grande é um de seus maiores atrativos. Afloramento rochoso com elevação de 1.400m, destaca-se na paisagem. É local de visitação obrigatória e, além disso, ideal para a prática de esportes radicais, atraindo grande número de pessoas, especialmente nos fins de semana.
A Serra do Itapetinga tem elevada biodiversidade e algumas espécies endêmicas exclusivas da área. Destaque para a Rã-grande-das-corredeiras (Megaelosia boticariana), descoberta em 1994 pelos pesquisadores Ariovaldo A. Giaretta e Odair Aguiar Jr., e publicada como espécie nova e endêmica da Serra do Itapetinga, em 1998. Atualmente, é declarada como espécie rara e, possivelmente, extinta.
Outro endemismo marcante na Serra é a cactácea Rypsalis spinescens, citada pelo biólogo Sérgio T. Meirelles em 1996, tipicamente presente no afloramento Pedra Grande, uma área extremamente sensível e que sofre o impacto dos turistas. Segundo Meirelles, nas lajes e matacões do conjunto Pedra Grande há 105 espécies de plantas vasculares e briófitas (musgos), sendo que 58 delas são capazes de se estabelecer praticamente sobre a rocha (granito), o que caracteriza tal ambiente como único e bastante frágil. Espécies características são as Amarílis (Hipeastrum damazianum), Bromélias (Dyckia pseudococcinea) e Orquídeas (Epidendrum ellipticum).
Dentre os animais existentes na região, as aves são as mais numerosas. No total, há 165 espécies somente no Parque da Grota Funda, que compreende 250ha dos 13.300ha da Serra do Itapetinga.
O Tovacuçu (Grallaria varia) foi registrado como espécie residente no ano de 2000 pelo pesquisador Willian Zaca e como espécie vulnerável no Ministério do Meio Ambiente. Espécies como o Tucano-de-bico-verde (Ramphastos dicolorus), Pavó (Pyroderus scutatos), Surucuá-variado (Trogon surrucura) e a Araponga (Procnias nudicollis) são observadas atualmente com baixa frequência, provavelmente vítimas da redução de seu habitat e da caça.
O aumento de aves da família Columbidae (Pombas e afins), em especial a Asa-branca (Columba picazuro), já era bem notado na área pelo pesquisador Willian Zaca no ano 2000. Segundo o célebre ornitólogo Helmut Sick, essa pomba estende seus domínios acompanhando os desmatamentos e adapta-se bem em áreas antropizadas.
O Gavião-pega-macaco (Spizaetus tyrannus), com 72cm de comprimento, precisa de grandes áreas para caça e nidificação. Recentemente foi avistado um único casal em toda a Serra do Itapetinga.
Alguns carnívoros ameaçados como o Lobo-guará (Chrysocyon brachyurus) são avistados ocasionalmente na Serra do Itapetinga, sendo residentes espécies como a Onça-parda (Puma concolor), a Jaguatirica (Leopardus pardalis) e o Cachorro-do-mato (Cerdocyon thous), dentre outros. De acordo com Tadeu Gomes de Oliveira e Kátia Cassaro, a Jaguatirica precisa de 0,76km² a 38,8km² de área para sobreviver, em média 2.000ha, e a Onça-parda necessita de 56km² a 155km² de área de vida, em média 10.550 ha.
Algumas espécies de primatas vivem na região, sendo os mais encontrados o Sauá (Callicebus nigrifrons), que está na lista dos quase ameaçados de extinção, e o Bugio (Alouatta guariba), que se acostuma bem em locais altamente perturbados pelas atividades do homem. No entanto, existem poucos grupos deste animal nas áreas da Serra do Itapetinga, tanto que no Parque da Grota Funda ele está praticamente extinto, havendo somente o registro de um último bando à margem do parque, em área de difícil acesso.
O impacto na Serra do Itapetinga pela expansão urbana é alarmante, levando-se em conta o número de desmatamentos e de incêndios ocorridos nos últimos 5 anos. Foram registrados cerca de 250 incêndios, além de inúmeros casos de desmatamento e, também, de irregularidades no uso do solo. No período de 18 de setembro de 2008 até a presente data, pela ação do fogo criminoso, contatou-se que aproximadamente 180ha de vegetação desapareceram da paisagem. Tal atitude gerou um cenário cinza, visualmente triste e ecologicamente pobre.
Culturalmente, a Serra do Itapetinga também é muito importante. A festa de Santo Antônio, comemorada na Igreja do sítio Santo Antônio, é uma manifestação popular de grande expressão na região. As congadas e a visitação à Igreja nos finais de semana pela comunidade do entorno revelam-se como uma tradicional expressão cultural.
A proximidade da Serra com grandes centros urbanos facilita o desenvolvimento de trabalhos científicos nas diversas áreas do meio ambiente. Tendo em vista sua beleza natural, a Serra é um potencial ponto de ecoturismo, porém a falta de consciência ambiental, bem como de legislação e de fiscalização, poderá distorcer sua sustentabilidade e proporcionar perdas irreparáveis para a diversidade da fauna, da flora e da cultura da região.

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